21/02/2007

ÁFRIKA A PULSAR ( II )

As ovelhas e bovinos domesticados das origens do Crescente Fértil levaram cerca de cinco mil anos até se distribuírem desde o mar Mediterrâneo e Norte de Áfrika até à extremidade sul de Áfrika. Os próprios animais endémicos do continente apresentaram dificuldades de domesticação.Irónicamente, a longa presença humana em Áfrika é provavelmente a razão pela qual as espécies de animais de grande porte sobrevivem ainda hoje. Os animais africanos evoluíram em conjunto com os humanos durante milhões de anos. Isso deu-lhes tempo para aprender a sentir um receio saudável pelo ser humano. Por oposição, a América do Norte e do Sul e a Oceânia foram ocupadas pelo ser humano apenas nas últimas dezenas de milhares de anos. Para infelicidade dos animais de grande porte desses continentes, os primeiros humanos que encontraram representavam já culturas modernas, com cérebros desenvolvidos e tecnologias evoluídas de caça. Populações de espécies de grande porte terão sido exterminados antes de terem tempo para aprender a recear os caçadores.Infelizmente, a longa presença humana em Áfrika encorajou também a eclosão de doenças. O continente tem a reputação de ter gerado algumas das mais terríveis: malária, febre-amarela, a SIDA. Estas e muitas outras doenças humanas surgiram quando micróbios causadores de doenças nos animais evoluíram e atacaram também o ser humano. Para um micróbio já adaptado a uma espécie, adaptar-se a outra pode ser difícil e requer muito tempo evolucionário. Em Áfrika, essa disponibilidade de tempo foi maior do que em qualquer outra parte do planeta. Esta é metade da resposta sobre a eclosão das doenças em Áfrika. A outra metade deve-se aos nossos parentes primatas: a espécie animal mais próxima dos seres humanos ( aquela para a qual os micróbios necessitaram de uma menor adaptação para mudar de espécie) são os símios e os grandes primatas afrikanos.Áfrika continua a ser moldada de maneiras diferentes pela sua longa história e pela sua geografia. Dos dez países mais ricos da Áfrika continental, nove encontram-se parcial ou inteiramente dentro das zonas temperadas: o Egipto, a Líbia, a Tunísia, a Argélia, e Marrocos a norte; a Suazilândia, a Áfrika do Sul, o Botswana e a Namíbia a sul. O Gabão é o único pais tropical de Áfrika que consta na lista. Além disso, perto de um terço dos paises do continente afrikano ( 15 em 47) são rodeados de terra, e o único rio afrikano navegável a partir do oceano até grandes distâncias no interior é o Nilo.
Como as vias marítimas são a maneira mais barata de trAnsportar produtos pesados, a geografia tolhe, mais uma vez inapelavelmente, o progresso de Áfrika.Todos estes factores podem levar à questão: estará o continente, ou , pelo menos, a sua grande parte central tropical, eternamente condenado à guerra, à pobreza e doenças devastadoras? De forma alguma. Em Áfrika fica-se fascinado pela forma harmoniosa como grupos étnicos coexistem em muitos países. As tensões crescem em Áfrika, como em todo o lado, quando as pessoas não vêem outra saída da pobreza a não ser lutar contra os vizinhos por recursos em desaparecimento.No entanto, muitas zonas de Áfrika possuem grande abundância de recursos: os rios da Áfrika Central são activos geradores de energia hidroeléctrica; os grandes animais são uma fonte importante de receitas do ecoturismo na Áfrika Oriental e Austral; e as florestas nas regiões mais húmidas, se geridas e aproveitadas de forma sustentável, tornar-se-ão fontes de receitas renovaveis e lucrativas.Quanto aos problemas de saúde de Áfrika, podem ser muito mitigados com o planeamento e o financiamento correctos.. No último meio século, vários paises anteriormente pobres da Ásia reconheceram que as doenças tropicais eram um sorvedouro na sua economia. Ao investir na saúde pública, refrearam com êxito essas doenças, e a saúde crescente dos seus povos originou economias mais saudáveis.Qual é a melhor perspectiva para o futuro de Áfrika? Se o continente conseguir ultrapassar os seus problemas de saúde e a corrupção que mina muitos dos seus governos e instituições, poderá tirar partido do mundo globalizado e tecnológico da mesma maneira que a China e a India o estão a fazer. E a tecnologia pode proporcionar a Áfrika as ligações que a geografia, em particular os seus rios, lhe negaram durante muito tempo.Quase metade de todos os paises independentes afrikanos têm o inglês como língua oficial, uma vantagem relevante para as relações comerciais. No futuro, uma força de trabalho, com niveis razoáveis de educação e com capacidae de se exprimir em inglês, pode seguramente atrair empresas e oportunidades de trabalho para muitos países do continente.Para Áfrika se dirigir para um futuro radioso, o investimento estrangeiro continuará a ser necessário, pelo menos durante algum tempo. O custo de uma ajuda perpétua ou de uma intervenção militar em Áfrika é milhares de vezes mais elevado do que a verba indispensável para solucionar problemas de saúde e apoiar o desenvolvimento local. Todos nós seremos mais saudáveis e estaremos mais seguros, se as nações afrikanas ocuparem crescentemente os seu lugares como membros pacíficos e prósperos da comunidade mundial.

ÁFRIKA A PULSAR ( I )

A geografia e a história explicam muito. Este é O ÚNICO continente que se estende pelas Zonas Temperadas do Norte e Sul; possui uma larga área central tropical no meio de duas estreitas zonas temperadas, uma a norte e outra a sul. Essa simples realidade geográfica explica muito sobre a Áfrika da actualidade qualquer que seja o prisma de observação.Quanto à história do ser humano, este é o local onde há sete milhões de anos as linhas evolucionárias dos primatas e dos pré-hominideos divergiram. Foi o único continente que os nossos antepassados habitaram até há cerca de dois milhões de anos, quando o Homo erectus se expandiu de Áfrika para a Europa e para a Ásia. No milhão e meio de anos que se seguiram, a população desses três continentes realizou percursos evolucionários tão distintos que daí resultaram espécies diferentes. Os da Europa tornaram-se os Neandertal, os da Ásia continuaram Homo erctus, mas os de Áfrika evoluíram na nossa espécie, Homo Sapiens.Entretanto, entre 100 e 50 mil anos atrás, os nossos antepassados afrikanos sofreram uma mudança ainda mais profunda. Náo temos a certeza se terá sido o desenvolvimento do discurso complexo ou outra qualquer faceta, como uma alteração do funcionamento neurológico.Fosse o que fosse, ela transformou os primeiros Homo Sapiens naquilo a que os paleoantropólogos chamam o " comportamentalmente moderno" homo sapiens. Esses indivíduos, provavelmente com o cérebro semelhante ao nosso, voltaram a expandir-se para a Europa e para a Ásia. Uma vez lá chegados, exterminaram, substituíram e misturaram-se com Neandertais e hominideos asiáticos, tornando-se a espécie humana dominante em todo o mundo.Com efeito, os afrikanos tiveram um enorme avanço em relação aos seres humanos de outros continentes. É isso que torna as dificuldades económicas de Áfrika, comparadas com o êxito de outros continentes, particularmente intrigantes.Uma vez mais, nesta questão, a geografia e a história dão-nos respostas.O mundo mudou radicalmente há cerca de dez mil anos, com a génese da agricultura. A domesticação de plantas e animais selvagens proporcionou aos nossos antepassados a possibilidade de produzir os seus próprios alimentos, escapando à obrigatoriedade de caçar e recolher. Essa vantagem permitiu o estabelecimento de comunidades em aldeias permanentes, aumentando populações e “gerando” tarefas e indivíduos especializados ( inventores, soldados e soberanos), que não produziam comida. Com a domesticação, surgiram outros avanços, incluindo os primeiros instrumentos de metal, a escrita e as sociedades estatais.Todavia, apesar deste avanço agrícola, apenas uma minúscula minoria de plantas e de animais selvagens se prestam à domesticação e essas estão concentradas em cerca de meia dúzia de zonas do mundo. A exploração agrícola mais produtiva surgiu no Crescente Fértil, no Sudoeste Asiático, onde o trigo, a cevada, as ovelhas, o gado bovino e as cabras eram domesticadas. Essas plantas e animais espalharam-se para Este e Oeste na Eurásia, mas em Áfrika foram detidos pela orientação Norte-Sul do continente. Culturas agrícolas e explorações de gado têm tendência a distribuir-se muito mais devagar de Norte para Sul do que de Este para Oeste, porque diferentes latitudes requerem adaptações climáticas, sazonalidades, diferentes horários diurnos e novas doenças.As próprias espécies de plantas endémicas de Áfrika só foram domesticadas milhares de anos depois de existir agricultura na Ásia e na Europa. E a geografia de Áfrika impediu que o óleo de palma, o inhame e outros produtos da Áfrika Equatorial se espalhassem para a zona temperada da Áfrika Austral.

19/02/2007

GOTA ENTRE LÁBIOS

Os ventos, teus suspiros
em mim, a ciclones chegam.

Brilho macio, ao longe
cintila como matinal estrela
na sua invisível viagem.

Águas de sal, movem-se
por dentro de corpos,
os nossos, entre si distantes.

Nos separa, Oceano imenso,
nossos corpos.

Mostrando-se,
mais, a invisível estrela
cintila um parecer de sal.

Certeza da visão,
o brilho é gota de água.

Assim Oceano em gota
transformada, entre nossos lábios,
adormecida no beijo molhado...

Nosso...

17/02/2007

DUALISMO

A controvérsia entre o partidário e o adversário do essencialismo tem mais que uma semelhança familiar com a venerável disputa, na filosofia das matemáticas, entre o platonismo e o construtivismo. Para o defensor do platonismo é concebível que um dia, no futuro, os matemáticos considerem verdadeira a demonstração, feita por um dos membros notáveis da sua comunidade, da falsidade de uma conjectura hoje não demonstrada, por exemplo o último teorema de fermat

É concebível que, apesar da racionalidade dessa opinião, a demonstração seja falsa e que o último teorema de Fermat seja verdadeiro. O seu adversário construtivista retorquirá sem dúvida que, ao mantê-la tão afastada dos meios racionais de que a humanidade dispõe para demonstrar ou refutar, o defensor do platonismo priva de inteligibilidade a ideia de verdade aritmética.

O defensor do platonismo e o defensor do construtivismo defendem duas concepções " substanciais" e inconciliáveis da verdade de um enunciado aritmético. Eles consideram insuficiente a teoria da redundância. Para um, um enunciado aritmético é verdadeiro se está em conformidade com a realidade numérica com a qual se relaciona, mesmo que sujeito a dúvidas ou não demonstrado. Para o outro, a verdade de um enunciado aritmético tem a ver com a demonstração que dela sabem dar os matemáticos.

16/02/2007

INDIFERENÇA


O inferno é o meu máximo.
Eu estava em pleno seio de uma indiferença que é quieta e alerta.
E no seio de um indiferente amor, de um indiferente sono acordado, de uma dor indiferente.
De um Deus que, se eu amava, não compreendia o que Ele queria de mim.
Sei, Ele queria que eu fosse o seu igual,
e que a Ele me igualasse por um amor de que eu não era capaz.
Por um amor tão grande que seria de um pessoal
tão indiferente - como se eu não fosse uma pessoa.
Ele queria que eu fosse com Ele o mundo.
Clarice Lispector

MANIPULAÇÃO

Estamos perante o eterno problema: qual é o significado, a natureza e o limite de alcance do nosso conhecimento do mundo exterior?
Qual é para o cientista que esforça-se por descrever os objectos que observa ( nós seres humanos incluídos) o “valor das suas verdades”?
Ficará o cientista isento de qualquer influência subjectiva parasita, e assim terá um conhecimento objectivo do objecto estudado? Entre o objecto estudado e o investigador que estuda, nasce uma ligação como que uma cumplicidade.
De Hume e Kant até aos epistemólogos comtemporâneos, a opinião é quase unânime: essa esperança é vã.
Kant declarava que a geometria euclidiana não era mais que um prolongamento da nossa intuição. Nietzche , cem anos mais tarde escrevia: “ Quando dou a definição de mamífero e declaro, depois de ter examinado um camelo, ‘eis um mamífero’ ,uma verdade foi realmente mostrada, mas ela tem no entanto um valor limitado, quero dizer que ela é inteiramente antropomórfica, que não contém um só ponto que seja ‘ verdadeiro em si’, real e válido universalmente, abstraindo do homem”.
Pois vamos andando no tempo e a história da investigação científica no séc. XX, introduz qualquer coisa que desordena muito mais as ideias herdadas. Vertiginosamente, acontecimento após acontecimento revela-nos mundos que já não prolongam a nossa intuição e que se desfazam dos hábitos de pensar quotidianos; quando se começou a pôr em causa a geometria euclidiana e fisíca newtoniana, aí começou esta história. Aqueles postulados que à força de serem repetidos, tinham acabado por fazer crer que constituiam evidências irrefutáveis.
Quando nasceram as geometrias não euclidianas e depois a fisíca da relatividade e dos quanta, compreendeu-se claramente que a realidade podia escapar às estruturas das nossas representações.
Nestes mundos do infinitamente grande e do infinitamente pequeno o delineamento figurativo da realidade tornou-se interdito.Por isso grande parte dos cientistas, políticos e “opinion makers” seguindo o exemplo do Marketing, repetem-nos até à exaustão seus conceitos, cristalizando na mente das pessoas “verdades”.


Há aqui como que um retorno a Narciso e Eco?!!

12/02/2007

PROSAC PARA GATA

Uma gata inglesa que sofria de depressão está a ser submetida a um tratamento à base de Prosac. Twiglet cumpre as indicações dadas por um veterinário que diagnosticou uma “ disfunção psíquica” com sintomas de ansiedade e stress, informou a agência Ansa.
De acordo com o mesmo veterinário, a gata entrou em crise depois de ser perseguida por um gato da vizinhança, não conseguindo voltar a sair de casa, para além de ter começado a engordar, contou a dona da gata ao jornal “ Daily Mail”.
“ Ela entrou em depressão, assim como acontece com um humano. O veterinário diagnosticou um problema de ansiedade e de stress por se ter assustado com outro gato” explicou. Como o tratamento deu resultado, Twiglet voltou a ser a mesma gata confiante de sempre, perdendo o peso e o medo de sair de casa..

Eu fico confuso com notícias ( palavra que é verdade) destas. Fico sem saber verdadeiramente quem está ou esteve doente no meio disto tudo.

O veterinário que encontra uma “disfunção psíquica” na gata ?
A dona da gata que reparou que a gata realmente voltou a ser a mesma gata ?
O gato que assustou a dita gata que terá que ser um monstro, logo estará doente?
Ou eu próprio por não conseguir atinar com as razões?


Ajudem-me, sinto a terra fugir-me debaixo dos pés...


P.S. O meu amigo( pois, ele até fala comigo) cão ,que tá aí cima na foto fez questão de me mostrar como toma ele o seu Prosac.

10/02/2007

SERIA , SERÁ QUE ?

«Ensinai aos vossos filhos o trabalho, ensinai às vossas filhas a modéstia, ensinai a todos a virtude da economia. E se não poderdes fazer deles santos, fazei ao menos deles cristãos»
(Salazar)

O vencimento dos gestores das empresas públicas açorianas está fixado num valor padrão de 3.039 euros ilíquidos mensais num diploma publicado em Março de 2005 pelo Governo Regional

Seria isto que António Salazar queria dizer?

...mas depois de alguns milhões terem morrido, por certo. Mais uma vez, o continente africano será o centro de todas as desgraças, quase de certeza. Já assim é no que diz respeito à SIDA e à malária. Agora, a gripe das aves é mais uma sentença de morte para os milhões de debilitados e famintos que vivem nos bairros da lata de Dakar, Nairobi, Kinshasa ou Luanda...

Seria este Admirável Mundo Novo de que falava Aldous Huxley?


...pois, face à sua decisão de relegar os tempos de antena para as 19 horas (ou seja, antecipar em cerca de ½ hora o habitual horário de transmissão), a Assembleia da República acaba de aprovar uma nova lei que obriga a RTP a colar os tempos de antena ao Telejornal...

Será esta a Bela e enternecedora Democracia de que nos falam sempre?


...pois bem, agora a Angop, citando uma notícia de Banjul, afirma que testes efectuados por um académico senegalês, da Universidade "Cheikh Anta Diop", de Dakar, a enfermos tratados pelo presidente, demonstraram que aqueles pareciam ser eficazes o que já levou o ministro gambiano da Saúde, Tamsir Mbowe, agradecer ao presidente Jammeh "pelo seu apoio e engajamento sólido para o bem-estar de todos os gambianos”Será que temos um Prémio Nobel da Medicina em potência?Agora entendo porque a ministra da saúde da África do Sul mandou os doentes de SIDA se tratarem com cebolas…

Será que a “ Ciência Política” está a chegar ao seu apogeu conseguindo aglutinar ( finalmente, que alívio) a Feitiçaria com a Ciência?

...Merima ( enfermeira de um hospital de Sarajevo) deu à luz no mês passado e de acordo com a imprensa local, a lista apresentada por Merima, inclui o nome de alguns dos mais conhecidos e bem-casados médicos do país...

Será que estamos perante uma milagrosa desmultiplicação de conceitos?
Será que podemos considerar o acto de Merima uma ”Interrupta Vontade Involuntária de Ovulação?

09/02/2007

INCERTEZAS


Muitas vezes, quando nos lamentamos das dificuldades da vida, dos problemas quotidianos, ficamos com a impressão de nos encontrarmos metidos num verdadeiro inferno, que nós próprios contribuímos para criar. Há dias em que dizemos “ Era melhor que não me tivesse levantado”. Porque tudo são contrariedades, uma atrás da outra.
A condição humana é suficientemente complicada para engendrar não importa
que tipo de preocupações e de opressões.
São Francisco de Assis - a quem tantos consideram como apóstolo dos ecologistas - , diferenciando entre a alma e o corpo, chamava a este último “ irmão burro” ; tal como o pobre animalejo que sobre o seu lombo suporte, durante anos e anos, sem descanso, as nossas fatigadas vidas.
E o caso é que, inclusivamente, agora, em tempos de maior integração psico-somática, a comparação continua a ser incisiva, por muito que não saibamos se é a alma que conduz e alenta o modesto equídeo, para continuar o seu caminho, ou se é o asno que inveteradamente suporta e dá a sua força, para continuar, à espiritualíssima alma.

08/02/2007

O CRIME DE SOFRER

Ajude-me a suprimir a dor que me faz sofrer mas deixe-a comigo para que eu possa existir.
Uma doente ao seu psicanalista.


Num romance surgido em 1872, Samuel Butler imagina uma região, Erhewon ( anagrama do inglês de nowhere), o país de parte alguma onde a doença é punida como um crime, a menor constipação pode equivaler a trabalhos forçados, apesar de a morte ser considerada como uma doença que merece solicitude e cuidados.

Com um agudo sentido da premonição, samuel Butler chega a precisar que a dor e a aflição, por exemplo, a perda de um ente querido, são punidas como um delito grave, não sendo o aflito mais que um delinquente culpado pelo seu próprio desgosto. A um homem acusado de tuberculose pulmonar, o juíz explica a sentença que vai pronunciar nestes termos: " Dir-me-eis talvez que não sois responsável nem do vosso nascimento nem da vossa educação. Mas responder-vos-ei que a vossa tuberculose, sejais ou não culpado, é um crime vosso e é meu dever velar para que a república seja protegida contra os crimes dessa natureza. Podeis dizer que é por infortúnio que sois um criminoso; eu replico que o vosso crime é ser infortunado."

Soberba e irónica intuição que a segunda metade do século xx confirmou ao dar, mais que qualquer outro período, um gigantesco passo em frente em direcção à negação da infelicidade e à "proibição de morrer" ( Philippe Ariés). Como se todos os tempos quizessem dar razão ao filósofo Alain, o infatigável bardo do optimismo da III República , (1911-1923) que nega qualquer realidade aos sofrimentos extremos. Como para Epicuro, eles não existem , não são palpáveis, " o horror é soporífico" e a morte quando chega é instantânea, não deixando qualquer lugar à imaginação, ao medo. Nesta escamoteação, vai mesmo ao ponto de sustentar sem ironia que um homem que caminha para a guilhotina " só tem que me lamentar"; basta-lhe pensar noutra coisa, de "contar os ressaltos ou as esquinas. Quanto a Pascal, a sua excitação perante as estrelas e o infinito " tinha origem sem dúvida em ter apanhado frio sem disso se aperceber quando estava à janela" (sic).

Será que é destas origens ou foi aí reforçado o conceito " INTERRUPÇÃO VOLUNTÁRIA DA GRAVIDEZ"? Sera a isto que se chama a reinvenção da linguagem?

07/02/2007

ÉDEN


Mas mostra o caminho,
que por mim não há demora;
ir contigo é igual a estar aqui;
ficar aqui sem ti seria como
partir sem querer; para mim tu és
tudo quanto existe debaixo do Céu,
tu és todos os lugares, tu a quem por
meu delito voluntário desterraram.
No entanto, ao sair deste lugar,
levarei segura este consolo;
ainda que por culpa minha se tenha perdido
tudo, foi-me concedido este favor,
apesar de imerecido, que de mim
nascerá a linhagem prometida,
que há-de vir a restaurar tudo.
Milton,John,El paraíso perdido


Insiste-se pelo menos na reivindicação de Eva
como origem da rebeldia, até abrir com o seu
pecado a porta da verdadeira natureza humana.
É só mais uma ideia entre as tantas que já existem.

O EU e o PODER

Consideremos um paradoxo: suponhamos que não somos tanto seres humanos que podem escolher seguir uma via espiritual, mas antes seres espirituais que escolheram seguir um caminho humano. Se esta proposição for verdadeira, então ela pode alterar a forma como vivemos a nossa vida e a nossa atitude para com o mundo. Desta perspectiva, a saúde pode ser encarada como a aceitação e expressão da nossa singularidade, permitindo que o nosso Eu real esteja totalmente presente e completamente empenhado e possibilitando-nos viver a nossa vida tão plenamente como desejaríamos.
Parte do processo de atingir um estado de maior auto-aceitação e auto-expressão consiste em aprender a confiar no Eu interior e a receber a sua sabedoria. Este Eu sábio sabe quem nós somos e do que necessitamos e conduzir-nos-á a experiências cada vez maiores de alegria e de paz. Essa alegria e essa paz são a realidade da interacção equilibrada entre corpo, mente e espírito.

06/02/2007

VELHO / NOVO MUNDO

Em definitivo não é a regularidade que mata a vida mas a nossa incapacidade de a ampliarmos para uma arte de viver que espiritualiza o que é da ordem biológica e alcandora o mais pequeno dos momentos às alturas de uma cerimónia. É talvez aqui que se distinguem as duas partes do mundo ocidental, mesmo quando tendem a aproximar-se. Os Americanos, como dignos utilitaristas, acreditam na felicidade, inscreveram-na na sua Constituição, e estão dispostos a ensiná-la, a prescrevê-la a todos. Se bem que os Europeus, mais cépticos, a considerem como sendo os prazeres e sobretudo a tomem pelo saber viver, a qual, moldada por uma longa tradição, forma uma espécie de civilidade colectiva que integra alegrias e tristezas.

Vede a oposição entre o fast food, princípio da alimentação apressada, solitária e barata, e a gastronomia, princípio da desgustação convivencial e devoradora de tempo. Duas formas de apreender o tempo; ou matá-lo, resumindo o que se repete, ou fazermos dele um aliado, elevando-o ao plano de uma liturgia. Uma releva de uma sociedade de serviços alicerçada sobre a comodidade e o imediatismo, a outra de uma sociedade dos usos que reconhece no seu património e nos costumes tesouros de inteligência e de refinamento que seria crimminoso esquecer.
A verdade é que as duas soluções nos tentam e que gostaríamos de beneficiar dos entendimentos do passado sem os seus constrangimentos, das vantagens do presente menos o seu empobrecimento. Filhos de uma herança compósita, oscilamos entre a nostalgia do ritual e os fantasmas da grande simplificação.

05/02/2007

REGRESSO A CASA

“Instalaram-se em Áfrika 800 empresas chinesas e as trocas China-Àfrika atingiram 40000 milhões de dólares em 2005”.

Durante o tempo em que Jonas Savimbi e a Unita combateram em Angola, primeiro contra os portugueses e depois contra o MPLA, a China teve um papel importante no apoio que lhe concedeu.

Hu Jintao foi ao Sudão, o maior país de Áfrika; mas não foi lá por causa do tamanho, ou pelas chacinas dos refugiados, mas sim porque o Sudão é fornecedor de petróleo da China.

Os mesmos chineses que ajudaram a Unita, ajudam os combatidos, o Governo de Angola. Povo magnânimo esses chineses, exemplo digno do fazer bem sem olhar a quém.
Confesso, e, perante tanta informação comecei ficando preocupado e cogitei:
- Se o ouro é amarelo e a raça é amarela, porque esse desvio de quererem o “ouro negro”?
- Se a lição da espiritualidade vem dos confúncios orientais,porquê esse apetite por coisas terrenas?
Preocupado sim, e não por razões xeno ou racistas, mas, também casa onde não há pão todos ralham e ninguém tem razão. Como não vislumbro a razão continuo supondo que também não há pão.


Adiante, coisa maravilhosa esta: a era da informação. Que nos enaltece agora, para nos apaziguar logo de seguida... é só um click.
Antropológicamente clicada surge-me esta científica aparição:
Àfrika é o local onde há sete milhões de anos as linhas evolucionárias dos primatas e dos pré-hominideos divergiram. Foi o único continente que os nossos antepassados habitaram até há cerca de dois milhões de anos, quando o Homo erectus se expandiu de Áfrika para a Europa e para a Ásia. No milhão e meio de anos que se seguiram, a população desses três continentes realizou percursos evolucionários tão distintos que daí resultaram espécies diferentes. Os da Europa tornaram-se os Neandertal, os da Ásia continuaram Homo erectus, mas os de Áfrika evoluíram na nossa espécie,HomoSapiens.Entretanto, entre 100 e 50 mil anos atrás, os nossos antepassados afrikanos sofreram uma mudança ainda mais profunda. Não temos a certeza se terá sido o desenvolvimento do discurso complexo ou outra qualquer faceta, como uma alteração do funcionamento neurológico.Fosse o que fosse, ela transformou os primeiros Homo Sapiens naquilo a que os paleoantropólogos chamam o " comportamentalmente moderno" homo sapiens. Esses indivíduos, provavelmente com o cérebro semelhante ao nosso, voltaram a expandir-se para a Europa e para a Ásia. Uma vez lá chegados, exterminaram, substituíram e misturaram-se com Neandertais e hominideos asiáticos, tornando-se a espécie humana dominante em todo o mundo.

Prova ,aprovada ,os directos dos Homo Erectus são os Asiáticos. Agora compreendo finalmente o uso do Viagra dos " comportamentalmente modernos " Homo Sapiens".
Como olho de Chinês ( por ser obliquo, os horizontes esticam-se) vê mais longe e vasto, necessário será cumprir os destinos da história humana, pondo os olhos em bico aos Afrikanos, regressam assim ao habitat primário, eles os Chineses, Homo Erectus, agora também " comportamentalmente modernos ". Estão simplesmente a regressar ao seu Continente de origem. Regresso à “terra mâe”, é legítimo e tem muita força. Isso sim a força da sua vinda, e não esses simples desejos dos petróleos, da riqueza ,do poder.

Assim alma e consciência esclarecida, esqueço esses invejosos boatos que são os desígnios dos “não esclarecidos”, e agora sim, acredito, que os “irmãos” todos unidos, “venceremos”.
Uma pequenina dúvida aflora leve em mim: será que o “efeito estufa”, camadas de ozono esburaqueando, não deixarão cumprir tais finalidades?

04/02/2007

4 DE FEVEREIRO

Nos primeiros 500 anos da era actual, os povos Bantu da Áfrika Central, que já dominaram a idade do ferro / siderurgia, iniciaram uma série de migrações para leste e sul.

Na Nação Angolana, instalaram-se os Kyokos, Nhanecas, Kikongos, Hereros Ovambos, Kuangares,Nhagangela e Jagas.
As guerras entre os povos eram frequentes. Os migrantes mais tardios "eram obrigados" a combater os que estavam instalados para lhes conquistar Terras.

Já é tanto tempo, mas ainda é ontem.


Aceitemos que não se combate/mata pela Terra. A Terra é para VIVER.

Matando a Mãe , serei sempre órfão!

O Marco Histórico e o Padrâo histórico são ainda tão próximos...

4 de Fevereiro...

03/02/2007

VERIFICÁVEL

Podemos curar alguns males mas nunca a própria infelicidade.

Consolação por comparação: temos necessidade do desastre dos outros para nos ajudar a suportar o nosso e verificar que existe sempre algo pior noutros locais.

Ninguém está verdadeiramente seguro de ser feliz; e ao interrogarmo-nos, já estamos a prejudicar a resposta

Que tudo não seja possível não significa que nada seja permitido.

A dor é um facto, não temos necessidade de ela fazer uma fé.

Se o ser humano não acede à humanidade a não ser através da provação, convém então distinguir esta da penitência.

Não depender do dinheiro, é saber que não viveríamos de outra forma se tivéssemos muito mais.

Uma linha muito fina, imperceptível separa nas nossas sociedades o dinheiro como fim e como meio; e é o trabalho do consumismo e da publicidade que total e permanentemente mais não faz que baralhar essa linha.

Torna-se necessário confessar um desconforto fundamental: impossível de desprezar o dinheiro, impossível de o venerar.

Há uma verdade na teoria da reincarnação: é na verdade neste mundo que podemos conhecer várias existências, renascer, recomeçar, bifurcar.

" AS CASTAS "

Se o dinheiro não dá felicidade, dai-o!
Numa passagem impressionante de Em Busca do Templo Perdido, Proust descreve a sala de jantar do Grand Hotel de Balbec " como um imenso e maravilhoso aquário diante de cuja parede de vidro a população laboriosa de Balbec, os pescadores e também as famílias de pequeno-burgueses, invisíveis na sombra, se esmagam contra a vidraça para se aperceberem, lentamente balanceada em turbilhões de ouro, da vida luxuosa dessas pessoas, tão extraordinária para os pobres como a dos peixes ou dos moluscos mais estranhos ( uma grande questão social, saber se a parede de vidro protegerá sempre o festim dos animais maravilhosos e se as gentes obscuras que olham ávidamente na noite não acabarão por as levar para os seus aquários e comê-las)".

Durante muito tempo as castas superiores das nossas sociedades encarnaram a aliança do saber viver, da beleza e das maneiras; não estavam somente libertas da necessidade como conduziam a espécie humana a um grau de refinamento e de extravagância jamais imaginado. Paralelamente a esta imagem impôs-se um outro lugar-comum: o da felicidade dos Grandes.
Expiando o crime de uma escandalosa fortuna, seriam simultâneamente infelizes e culpados: infelizes pela sua ociosidade, culpados de viver parasitando uma população que trabalha e sofre.
Confessemos que é um lugar-comum cómodo: permite aos despojados suportar a sua condição, sendo a dos seus amos infinitamente mais penosa. Inútil invejá-los ou destruí-los: eles já se encontram no inferno!
A nossa época pôs termo a esta fábula. Por um lado , os ricos não são infelizes - se o são não se prende com a sua conta bancária- e ainda menos arrependidos.
Como se encontra repartido por muito poucas mãos, o dinheiro parece encarnar ( qual deus) todas as maravilhas do mundo. A possibilidade aberta a cada um de enriquecer ou pelo menos conhecer o desafogo acelerou completamente e de uma
só vez o desejo e banalizou um universo que outrora parecia maravilhoso.

O rico é um pobre que foi bem sucedido sobretudo quando vemos tantos jovens
tornarem-se, graças às novas tecnologias, milionários aos 30 anos.

Eis o que eu aprendi
nesses vales
onde se afundam os poentes:
afinal, tudo são luzes
e a gente se acende é nos outros.
A vida é um fogo,
nós somos suas breves incandescências.
(Mia Couto)



01/02/2007

ESTRELAS

Estrelas que empequenam o universo,
tornando-o, junto a nós!

Encheram a terra de fronteiras,
carregaram o céu de bandeiras.
Mas só há duas nações- a dos vivos e a dos mortos.
(Juca Sabão)
O mundo
já não era um lugar de viver.
Agora, já nem de morrer é.
(Avô Mariano)
Acordar não é de dentro.
Acordar é ter saída.
(João Cabral de Melo Neto)
A mãe é eterna,
O pai é imortal.
(Dizer de Luar-do-Chão)
Assim esteve Deus, para mim:
primeiro, ausente;
depois, desaparecido.
(Fulano Malta)
O bom do caminho é haver volta.
Para ida sem vinda basta o tempo
(Curozero Muando)
Solteira, chorei,
casada, já nem pranto tive.
Viúva, a lágrima teve saudade de mim.
(Miserinha)
Eis a diferença:
os que, antes, morriam de fome
passaram a morrer por falta de comida.
(Taberneiro Tuzébio)
A lua anda devagar
mas atravessa o mundo.
( Provérbio Africano)