30/12/2007

Um certo Natal

Definitivamente o som da rua empalidecia , a meu lado surgia do fundo,
UM FUNDO: aquela mulher desprendia se da sua universalidade.
Três crias fizera nascer, no estômago vazio, socos encaixara do homem que a desamava,
vezes,
inúmeras,
rebentara lhe um fio de sangue num dos seus múltiplos cantos, sarava se bebendo dele. Guardava um sorriso para as crias famintas.
Ele o seu homem, alheava se no afastamento, fechado na cruel visão opaca.
Coisas de homens.
Numa centésima vez , o punho, vinha em direcção a ela, renovou forças, ferrando os dentes na carne agressora. Algo sorriu dentro dela, perante o gosto sanguíneo A dor nos olhos dele. Qual fera saltou lhe à jugular, sedenta de mais…
Tomou lhe a vida, tornou o inexistente.
Os olhos das suas crias não olhariam o uso da máscula cruel opressão da linhagem.

Acoitou se em ninho enrolada com suas crias,

seu instinto, atento, mão de mãe madura,
cumprira desígnios.

...muitos amanhãs desconhecidos, os esperavam...
...um certo Natal…

19/12/2007

os adultos


…sim,
por vezes, bastas,
choro, um choro silencioso,
de lágrima lacinante
a rolar
não consigo olhar te “irmão” Caim,
maria “mãe” , sem leite me deixaste
do e de um “pai” não tenho memória,
tropeço me no chão,
deitado olhos no infinito do espaço
entre mim e a longínqua estrela
choro, mais…
lavo me deste aperto
a amarga lágrima- salinidade aguda-
rola por entre meus lábios,
certifica me a amargura, a mim criança,
o quanto só estou perante
os adultos…

18/12/2007

Mundo Cão

Admirável Mundo Cão. O animal que comete a agressão. Os pais que ocultam.
Á minha volta as pessoas consideram que isto não é nada. Recorrem sempre à comparação para mitigar as almas e as culpas. Pois se numa qualquer outra parte do Mundo tem mais casos desses, lá é pior do que cá, concluem que afinal até não estamos mal. Realmente comparados com os seres das cavernas estamos muito melhores...

17/12/2007

SEXUAL AGRESSOR


Um bar , uma lágrima contida.
Medo?
Um bebé mutante, passeia se,
(luscofusco é a luz)
Em mim.

As sombras , porque existem.
Vocês sabem, o espaço de luz pura
demora,
daí a lágrima contida.

Vómito precedendo o não ingerido.
Medo?
Estou incurável , canceroso o lugar do sonho.

Criança , quatro anos, violentada.
No acto do sexual agressor,
na conivência dos pais, a moral
monstro que pavoneia se.
Não se diz nada
A vergonha supera a denúncia.

Medo?
Da felicidade silenciosa?
Real social?

Melhor deixar rolar a lágrima…

11/12/2007

HISTÓRIA DA ANTIGUIDADE



Considerando aqui a luz como primórdio das coisas, deus é identificado como luz, o fogo que brilha como uma ideia, corrente luminosa que corre o universo, percebemos a antecipação ao ser humano. Não é a luz que conceitua o ser humano, mas ela é a fonte do conceito elaborado, significando que já cá estava antes do humano.

Existe um fundo comum entre as religiões sendo o mais importante ou pelo menos aquele que se exerce mais visível : o ser humano como ser místico que é está sempre em interação constante com os fenómenos que sempre lhe escapam, não os dominando portanto. Como esses fenómenos estão sempre na esfera do intangível, a sujeição a algo de transcendente cativa e fá lo aceitar sempre toda a premissa que aponte um arco íris de felicidade ( vulgo paraísos, nirvanas e afins).
Assim a religião que antes de ser um conceito, é o ser humano e socorrendo- da teologia, ritualiza gestos de habituação, cristaliza crenças, para optimizar a sujeição do ser humano manipulando. A resposta final das religiões todas, está sempre para lá numa outra existência noutros espaços.
A tirania , entendida como verdade absoluta, impõe- se “ a minha verdade tem que ser a vossa” se não sereis castigados com o inferno , o sofrimento.
A arquitectura que é uma invenção do ser humano possui em si o gérmen puro do condicionamento ajuda a cimentar os conceitos religiosos, construindo grandes templos mesquitas e basílicas. Estas construções são feitas pelas mãos dos habitantes terrenos mas depois de acabadas tornam-se as “casas dos deuses”, lembrando que existem paraísos.
Contra os desvios e ao longo dos tempos criam se mecanismos de persuasão: a feitiçaria, a inquisição, os medos criados invocando a morte e os seus rituais. Impondo a força como demonstração e representação divina.
Sarcófagos, túmulos, jazigas são sempre cemitérios de mortos em última análise.

A manipulação dos seres humanos é o fundo comum das religiões.

08/12/2007

Degraus



Respirava se uma incerteza
Naqueles campos verdejantes.

Como num país completamente
Desconhecido no seio do real.

O problema do e e do ou
Quem explicará a essência
Das subtis complexidades.

E o logotipo do modelo orbital do átomo
Era extraordinário, parecia-me suspeito
Enganoso , retirado foi.

Reconheço e , ou o espírito tem degraus.

05/12/2007

A Cartomante


A cartomante falara, em nome de uma vidência, de coisas dos nossos dentros
. Nos limites olhamos dos dois lados. A tortura não é eterna,
tampouco existe punição

Com um gesto suave, alertou-me, para o esfuziante desmaio de
amor, mostrava ela, sensualmente, em posição fetal, a incógnita da
dimensão poética, o doloroso nascimento. Serão o ruído ou o
silêncio os inimigos a evitar.

Abrirás uma ferida, lá colocarás o eco do silêncio.
Designou me a cartomante.

02/12/2007

Platónico resfriado





Há uma “oscilação interior”, um trapézio sem rede.
Espalmo me nesta cega parede da casa beiral, resguardo me da chuva caindo à frente. Espero .
prometeste num sorriso.
Daqui vejo a luz da tua janela acesa, colocas me as garras maiores. Queria chamar te gritei o nome, abafado pelo som da água chovendo, não me ouviste.Esqueceste.
? que faço então com tanta experiência.
Escreverei. Sim esta a miraculosa saída, busco nos bolsos frenéticos, o papel onde farei chegar mensagem , a ti.
Num súbito clareamento do raio electrizante entre trovejos vi foscamente para lá das gotas escorrendo do lado de fora da tua vidraça, do papel procurado uma pasta molhada tangível, não escrevível. Das gotas escorrendo da chuva, pensei-as como lágrimas futuras chorando em meu rosto. Apagaste a luz.
Passei aqui, senti te aí,
Foi quanto me bastou.